Marighella, terror e amor na Berlinale

Tive a sorte de conseguir um dos tão disputados ingressos da Berlinale, um dos mais importantes festivais de cinema do mundo. Quem mora em Berlim já sabe que se quiser muito ver um filme tem que ficar esperto porque os ingressos esgotam em minutos.

Eu, feliz da vida, com meu ingresso disputado à pontapés e mordidas (mentira, um amigo com tempo disponível e bondade no coração fez a gentileza de comprar pra mim na bilheteria) fui assistir a estreia de “Marighella” dividindo a sala de cinema com Wagner Moura (diretor), Seu Jorge (Marighella), Bruno Gagliasso (Lúcio), Bella Camero (Bella) e vários outros atores e pessoas da produção do filme.

A caminho do cinema era possível ver um pequeno grupo de manifestantes na Potsdamer Platz. O grupo protestava contra as injustiças acontecendo atualmente no Brasil, a ocupação indevida de reservas indígenas por fazendeiros e empresas, a morte de Marielle Franco, Anderson Gomes e Sabrina Bittencourt. Isso já dava o clima do que seria o filme que eu estava prestes à assistir.

Marighella é um filme que pode ser enxergado de duas formas bem distintas:

  1. Marighella foi um herói revolucionário que lutou pela libertação do povo brasileiro das garras da ditadura militar.
  2. Marighella foi um terrorista comunista que levou muitos à morte e deveria ir pra Cuba.

Assista o filme, leia muito sobre o período da ditadura militar no Brasil entre 1964 e 1985, leia sobre a história de Marighella e escolha qual dessas duas opções faz mais sentido pra você. Se você gosta de história e política pode acessar o http://memoriasdaditadura.org.br/ e pesquisar mais sobre o assunto.

O filme é uma adaptação do livro “Marighella – O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo”, de Mário Magalhães e Wagner Moura disse em entrevista que alguns dos personagens do filme são baseados em mais de um personagem do livro e por este motivo eles tem nomes diferentes dos do livro.

Não li o livro do Magalhães e nem vivenciei o período da ditadura militar no Brasil pra dizer com certeza o que no filme é real ou ficção, mas de qualquer forma achei que é uma boa história e que merece ser contada.

Marighella é um filme com muita ação e muito dramático. Um filme pra assistir na ponta da poltrona com o coração na mão. Em vários momentos do filme eu tive que segurar as lágrimas e em alguns momentos elas foram mais fortes e escorreram pelo meu rosto.

Dentro da sala do Berlinale Palast a platéia assistia ao filme quieta e tensa. Os brasileiros ali presentes, assim como eu, visívelmente sofriam mais, por se tratar se temas que nós já conhecemos muito bem: ditadura, censura, racismo, perseguição, violência, tortura e família. Coisas que vimos nos livros de história, em músicas, em filmes, mini-séries ou na vida real, na nossa frente.

É um filme violento, mas que contém muito amor. Amor pela pátria, amor por um ideal, amor entre casais, amor de pai e filho, amor de mãe e filha, amor entre amigos de verdade.

Eu me sinto segura para dizer que Marighella é um filme sobre terror, mas também sobre amor.

Se o que eu escrevi até aqui ainda não te convenceu de que o filme merece a sua atenção talvez o próprio diretor do filme o convença.

Wagner Moura, em entrevista ao Brasil de Fato.

Vou deixar aqui também o vídeo que me convenceu de que EU PRECISAVA ver esse filme urgente. Nada mais, nada menos que o atual presidente do Brasil falando sobre o filmes antes mesmo dele estar pronto. Vi esse vídeo pensei: Poxa! Um filme que ainda nem está pronto e já tem o presidente do Brasil (na época ainda não eleito) falando sobre com certeza merece a minha atenção.

Bolsonaro fazendo propaganda expontânea para o filme sobre o Marighlella.

Me digam caros leitores, este filme merece ou não merece ser assistido nos cinemas brasileiros?

Quem me conhece sabe que eu sou fã de filmes de terror, mas nada me assusta mais do que a realidade. As cenas de tortura que tem no filme são de assistir se contorcendo na poltrona. Agradeço muito ao Wagner Moura por não ter achado necessário mostrar toda a crueldade que aconteceu na realidade e me poupar de ver cenas de mulheres nuas sendo torturadas e estupradas. Sabendo do histórico de filmes brasileiros que usam qualquer desculpa para colocar um corpo feminino nu na tela mesmo que não acrescente nada ao roteiro fico realmente aliviada por não ter visto uma cena de estupro, que neste filme caberia.

Eu parei de respirar quando a família de um dos integrantes do grupo do Marighella foi levada, mas fiquei aliviada de não ter visto crianças sendo torturadas na frente dos pais. Obrigada Wagner Moura, por me poupar de ver uma cena dessas.

Uma das coisas que mais gostei no filme foi de ver a relação entre o Marighella e seu filho Carlinhos. O filme lembra que Marighella foi um guerrilheiro, terrorista, comunista e o que mais você quiser chamar ele, mas ele também era humano e era pai. E como é difícil e doloroso fazer escolhas pensando em seu filho.

O delegado Lúcio, interpretado por Bruno Gagliasso, é uma delícia de odiar. Todo errado ele. Abusivo, racista, arrogante, nojento, enfim, o personagem junta tudo o que tem de ruim no ser humano e não te deixa dúvidas sobre quem é o verdadeiro terrorista nesta história. Eu nem consigo imaginar como deve ter sido difícil esse trabalho pra ele, visto que ele tem uma filha, menina e negra. Ele até se emocionou e chorou ao falar sobre o seu personagem na coletiva de imprensa do festival.

Não tenho dúvidas de que Seu Jorge foi uma excelente escolha para personificar Carlos Marighella, embora algumas pessoas tenham dito que “empretejaram Marighella” e Wagner Moura defendeu dizendo que Marighella foi filho de um imigrante italiano com uma neta de escrava do Sudão, portanto, Marighella é sim preto. Eu vejo isso e fico aqui pensando na hipocrisia de se aceitar que um personagem seja embranquiçado, mas não aceitar que seja empretejado. E que atuação maravilhosa do Seu Jorge! Vontade de levar pra casa pra tomar um café com bolo e falar sobre o filme.

Aliás, uma das minhas cenas favoritas no filme é a que o padre conversa com Marighella e fala sobre Jesus Cristo ser na verdade preto e não branco, como os europeus inventaram.

O filme é cheio de pequenas cenas e pequenas falas que me fizeram quase saltar da minha poltrona e ir dar um abraço no Wagner Moura e dizer: Muito obrigada por este filme! Mas eu estava a sessão inteira em estado de choque e nem conseguia piscar ou mover qualquer parte do meu corpo.

Outra cena, que é curta, mas cheia de mensagem e não pode passar em branco é a cena que o delegado Lúcio está em sua confortável e rica casa, com sua família (Doriana tradicional brasileira perfeita) assistindo televisão e uma empregada, uma mulher negra vestindo uniforme, vem servir limonada. Pra mim essa é a cena “dedo na ferida” da cultura escravocrata brasileira.

Depois que o filme acabou Wagner Moura foi chamado ao palco para falar um pouco e chamou todos o atores e equipe que estavam ali presentes e nos proporcionou um dos momentos mais emocionantes. Ele gritava: “Marielle” e a platéia respondia: “Presente!“. Foi de arrepiar.

Conversando com um amigo alemão sobre o que era o filme ele me contou que o “Minimanual do Guerrilheiro Urbano“, escrito por Carlos Marighella, foi utilizado pela Fração do Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion ou RAF),que foi uma organização guerrilheira alemã de extrema-esquerda. Olha aí os alemão usando jeitinho brasileiro de brigar na rua!

A única coisa que não gostei no filme, foi que não mostraram a Clara Charf, interpretada pela atriz Adriana Esteves, lutando ao lado do Marighella. Quero um filme só sobre essa mulher! Vou terminar este post com uma entrevista dela para o saudoso Abujamra no programa Provocações da TV Cultura e escrevi tanto que estou com medo da polícia vir aqui bater na minha porta.

Você também assistiu ao filme? Me conta o que achou aqui nos comentários. Vamos conversar.

Publicado por Lili

Leia também www.berlili.wordpress.com

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