Não é cerveja nem gripezinha

Hoje, 26 de março de 2020, eu fui caminhar e sentir um pouco de sol na cara depois de sobreviver a mair um inverno em Berlim. Tudo bem que o aquecimento global deixou este último inverno com cara de outono e nem neve tivemos por aqui, mas mesmo assim, sofro com o frio, com a escuridão e com a falta de sentir o sol queimando a pele até arder.

Hoje poderia ter sido apenas mais uma caminhada de início de primavera, mas não foi, a cada passo que eu dava eu pensava no quanto é bom ainda ter permissão para poder sair de casa para uma caminhada, mesmo que seja sozinha, para ir a lugar algum e o mais importante: respirando.

É março de 2020 e me vejo no meio de uma crise global por causa de um vírus. Não estou aqui pra discutir quem começou, quem espalhou, se isso é alguma conspiração, arma biológica, castigo de Deus, a natureza se vingando ou o retorno de Saturno global. Apenas vejo isso como um grande momento para cada indivíduo:

  1. Olhar pra dentro e refletir com sinceridade sobre os seus atos, suas escolhas e suas prioridades.
  2. Olhar para os lados e pensar em como pode ajudar.

Andando pelo meu bairro pra fazer um pouco de fotossíntese (ontém fiz fotossíntese na varanda mesmo) reparei que há poucas pessoas nas ruas, geralmente alguém com uma criança pequena, ou empurrando um carrinho de bebê, ou alguém correndo pra manter o corpo em forma mesmo com as academias fechadas. Há menos carros, ainda há muitas biciletas, o transporte público ainda funciona, mas quando olho dentro vejo que há pouquíssimos passageiros. O transporte público agora é só pra quem precisa mesmo nada de ficar passeando pela cidade.

Passei pelo parquinho onde eu sempre levo meu filho pra brincar e olhei com tristeza pra aquele lugar vazio, em silêncio, com faixas fechando as entradas. As crianças não podem ir à escola ou créche e também não podem brincar em lugar nenhum porque o vírus pode ficar na superfície dos objetos por até 3 dias. As crianças tem imunidade alta e muito provávelmente sobreviverão, mas para seus vovôs e vovós não é bem assim…

Muito se fala sobre o vírus matar apenas idosos, mas já há registros de pessoas na faixa dos 30 anos que não sobreviveram e tem criança de 10 anos internada na UTI por causa do Covid-19.

Eu, Lili, 37 anos, escorpiana dramática e asmática. Não, eu não sou idosa. Sim, eu faço parte do grupo de risco e tenho um filho de menos de 3 anos (que eu apelidei carinhosamente de hospedeiro) pra criar. Por este motivo estou desde o dia 8 de março muito quieta em casa com meu pequeno hospedeiro, só pra ter certeza de que ele não vai trazer nenhum vírus letal pra dentro de casa.

Todos os dias eu agradeço o fato do hospedeiro não ter idade suficiente pra me perguntar porque estamos em casa, quando ele vai pra Kita de novo e nem pedir pra ir pro parquinho. E todos os dias me sinto um pouco o cara do filme “A vida é bela”, que continua brincando com o filho e fazendo ele sorrir como se o mundo não estivesse acabando.

Estamos em casa também para que o sistema de saúde de Berlim não se sobrecarregue com todos ficando doentes ao mesmo tempo e assim continue tendo condições de tratar e curar as pessoas, não apenas as pessoas com o Covid-19, mas também todas as pessoas com todas as outras doenças que não pararam de existir neste período em que só se fala de Corona.

Acompanhei as notícias da China, confesso que no início sem dar muita atenção e em fevereiro vi algumas notícias e alguns vídeos que me deixaram realmente preocupada. Quando o Covid-19 chegou na Europa eu já comecei a ter leves surtos e quando o vírus entrou na Alemanha eu já comecei o meu Hamsterkauf e a me preparar pra guerra.

Hoje tento manter a calma, até me distanciar um pouco do problema, mas é inevitável ficar angustiada vendo que o Corona chegou chegando no Brasil e sabendo que o Brasil não tem nem um sétimo da infra-estrutura a que eu tenho acesso aqui na Alemanha.

A cada notícia que eu leio e a cada mensagem que chega no meu Whatsapp das minhas amigas queridas que eu morro de saudades, o meu coração se aperta. Acompanhei algumas reações pensando: “Ah! Déjà vu! Eu estava me sentindo assim há 3 semanas, será que dou spoiler ou espero elas chegarem no episódio em que eu estou?” Daí eu me dei conta de que a temporada américa latina vai ser muito pior do que a temporada união européia e comecei a pensar em como eu poderia ajudar?

Eu não ajudo muito falando “Fica em casa arrombado!” porque eu vivo em um universo paralelo onde o Estado se importa com a população e tem recursos para cuidar das pessoas caso elas não possam trabalhar e pagar as contas.

Eu também não ajudo muito dizendo o que está sendo feito aqui porque isso só vai fazer os amiguinhos lá no Brasil ficarem com mais raiva ainda do atual governo.

Mas eu acho que eu ajudo contando o que eu vi de iniciativa da própria população para ajudar uns aos outros e que podem inspirar ideias no Brasil para que as pessoas encontrem outras soluções para diminuir a propagação do vírus e continuar fazendo a economia girar.

Este post aqui já virou textão-chato-desabafo então vou escrever as inspirações neste outro post. Sobrevivam amiguinhos.

Publicado por Lili

Leia também www.berlili.wordpress.com

%d blogueiros gostam disto: